Idosa conclui faculdade aos 70 anos e fala da importância de realizar sonhos

Aos 70 anos e com uma história de vida cheia de dificuldades, Maria de Fátima Abade Barbosa atravessa a terceira idade realizando sonhos. O mais recente foi concluir o ensino superior, com a apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), no curso de Licenciatura em Educação do Campo – Artes.

Também foi ela quem encantou todo o Brasil ao sair do Tocantins em direção ao Rio de Janeiro, para realizar o sonho de ver a escola de samba Portela na Marquês de Sapucaí, em março deste ano. Outro sonho realizado foi adquirir um saxofone, o que a levou até o Paraguai para comprar um exemplar mais barato.

Maria de Fátima teve uma vida sofrida, segundo ela própria contou em entrevista ao g1, até conquistar o tão sonhado momento da conclusão do curso superior, em Tocantinópolis. Aos cinco anos, aprendeu com a mãe a ser quebradeira de coco babaçu, trabalho que não rendia muito dinheiro para a família, principalmente pela dificuldade de acesso às áreas que tinham a palmeira, pois pertenciam a fazendeiros.

A vida humilde que Maria de Fátima e a mãe tiveram a impediu de se manter na escola por muito tempo. Quando cresceu, a agora universitária buscou trabalho como empregada doméstica em outra cidade, momento de muito sofrimento, conforme relembrou.

Entrada no ensino superior

Como se fosse uma espécie de ‘chamado’ para a educação, outra professora a incentivou a não parar os estudos. A docente a orientou a prestar o vestibular e assim fez Maria de Fátima.

Quando começou o curso, aos 67 anos, a idosa admite que chegou a ouvir comentários ruins sobre a idade e a decisão de retomar os estudos.

“Passava para ir para a escola e alguém dizia ‘papagaio velho não aprende a falar’, essas coisas desagradáveis, só para botar a gente para baixo. Mas a gente não deve ouvir”, enfatizou.

Quanto aos professores, Maria de Fátima se derrete em agradecimentos, principalmente à orientadora do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), Iara Rodrigues da Silva.

Própria vida contada no TCC

A trajetória de dificuldades que se misturava à coragem de realizar sonhos e seguir em frente virou o tema do TCC de Maria de Fátima. “Nunca é Tarde para Aprender: A história de vida de uma mulher preta que foi excluída do processo educacional de ensino”, foi o título e a defesa aconteceu no dia 13 de novembro.

O trabalho foi aprovado com louvor e a estudante contou um pouco sobre como foi a produção. Por não ter intimidade com computadores, ela contou com a ajuda do colega Vinícius Macedo, que digitou toda a história para o trabalho.

“Eu falava da minha história de vida. Quebradeira de coco, da roça, sem nada, com a minha mãe”, explicou.

Já para a apresentação, Maria de Fátima montou um cenário para lembrar como era a vida na roça e os poucos itens que representavam a humildade do seu contexto social. Também levou seu tão sonhado saxofone, trazido de longe, e símbolo dos sonhos que ainda pretende realizar.

“Tive uma volta ao passado para as pessoas lembrarem um pouco [da vida na roça]. Hoje a gente vive uma vida diferente, com a luz, com a internet. Na apresentação entrei com roupa de quebradeira de coco, depois troquei por outra e peguei o sax para dizer que a quebradeira de coco chegou ao sonho dela, que era aprender a tocar o sax. Acho que as pessoas entenderam que quando a gente tem aquele sonho, luta para realizar”, disse a idosa.

Maria de Fátima também deixa a mensagem para que todos corram atrás de seus sonhos, lembrando que aprendeu dentro da faculdade a ter ainda mais garra para correr atrás do que se deseja.

“É muito triste a gente não realizar um sonho da gente. Mesmo pequeno que seja, a gente tenta realizar porque um dia vai embora para sempre de mundo, e sem retorno”, pontuou Maria de Fátima.

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